
TRADIÇÕES
As tradições do Soito são parte da vida de quem cá vive, mas são sempre motivo de quem cá volta.
CAPEIA ARRAIANA
Segundo Adérito Tavares a prática da Capeia no Concelho do Sabugal deve ser entendida no âmbito de afinidades culturais entre a região de Riba-Côa e a região próxima de Castilla Y León, fundadas não apenas na proximidade física mas também nos contactos entre as populações, nomeadamente por via do contrabando, e que fomentaram semelhanças no linguajar, no vestuário e nos costumes. A própria capeia nasceu desta vizinhança. A palavra vem do castelhano “capea” e relaciona-se com o acto de capear ou iludir o touro com uma capa. As primeiras capeias arraianas começaram nos últimos decénios do século passado (Séc. XIX) e pouco a pouco, o hábito foi-se enraizando, de aldeia em aldeia.
Eugénio Duarte esclarece que no Soito, até aos anos 40, a festa dos touros não se designava nem por capeia nem sequer por tourada, simplesmente corria-se o boi, no mês de Setembro, com o forcão e um único touro.
O mesmo touro era depois lidado em várias aldeias, o que não resultaria em lides de grande qualidade. Com o tempo começaram-se a utilizar mais que um animal, geralmente pequenos garraios, assegurando-se sempre um touro de grande porte para os valentões. A meio da festa gritava-se: - Venha o grande! Venha o grande!
É a festa raiana por excelência! Não há outra que a supere! E as gentes da raia não podem passar sem ela! Em tempos mediam-se as aldeias pela valentia demonstrada na capeia, e os rapazes não arranjavam namorada se não se metessem nos touros. Já assim era há cem anos atrás, tempo em que - ai daquele que se recusasse, que era homem perdido para os outros, homem desprezado pelas raparigas.
HISTORIA
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O FORCÃO
Elemento fundamental e que dá particularidade a esta manifestação de cultura popular é o forcão. Construído com madeira de carvalho, bem secos, bifurcados à frente, reforçado no meio por transversais, que lhe dão maior firmeza, a sua armação triangular serve para proteger os homens das investidas do touro, mostrando a valentia daqueles que medem forças com um animal que ostenta, quase sempre, uma corpulência de meter respeito.
Enquanto, os movimentos coordenados permitem escapar ao ataque lateral ou vertical do touro, o engenho produz um sublime efeito de bailado na arena. O peso aproximado de 300 quilos é manejado por um grupo de cerca de trinta homens, que avalizam a sua coragem, ao mesmo tempo que suportam as investidas do touro, rodopiando, através de exercícios bem coordenados, de forma a evitar o ataque lateral ou vertical.
O grupo de corajosos dispõem-se lateralmente ao forcão, os mais destemidos ficam à frente, na galha, aguentando as investidas do touro. E os mais altos ficam no vértice traseiro, denominados Rabichadores ou Rabicheiros, que conduzem o forcão para impedir a passagem do touro.
O forcão já se utiliza em várias aldeias, de forma regular, há mais de cem anos, no entanto, registe-se que os rapazes de outrora se atavam uns aos outros, com cintas, de maneira a que quando algum caísse, ficasse livre de perigo.
Para evitar acidentes é necessário que s homens que pegam ao forcão tenham habilidade e experiência suficientes para desempenhar o lugar que irão ocupar, é necessário muito engenho e perícia.
A arte de pegar que já nasce com todos, ou quase todos os arraianos. Há quem diga que já é uma tradição hereditária.

O ENCERRO
O encerro realiza-se pela manhã e consiste na recolha e encaminhamento dos touros para o curral ou currais preparados junto à praça. A recolha dos animais faz-se atualmente a partir da herdade (lameiro) para a qual foram trazidos temporariamente, após o transporte, efectuado dias antes, das ganadarias onde o seu aluguer para o encerro foi contratado. A recolha dos touros é efetuada por cavaleiros com auxilio de cabrestos (touros castrados) e vacas mansas, utilizadas para encorajar os touros no seu percurso para povoação e assegurar o encerro na arena.
Muitos acompanham a manada a pé, em carreira pela retaguarda, enquanto tiverem pernas e se os caminhos são largos podem seguir a par dos touros, gritando-lhes em grande euforia. A maior parte da assistência, porém, espera-os alcandorada nos muros, nas árvores e nas casas, desmobilizando logo depois da passagem do cortejo e deslocando-se de imediato para a praça, a fim de encontrar lugar para assistir ao boi da prova. Os mais afoitos, enquanto tenham pernas, correm à frente ou ao lado dos cornúpetos, que, na correria, raramente investem. É a loucura completa, como se toda a população estivesse em transe. O programa do encerro só termina com a lide do boi da prova, espécie de mini- capeia.
BOI DA PROVA
Logo após o encerro tem lugar o boi da prova. Esta componente da Capeia consiste em “fazer sair” ou “correr” um dos touros para avaliar a qualidade do “curro”, termo que também designa o conjunto dos touros a lidar nesse dia. Par além da dimensão de antevisão da exigência a que os touros sujeitarão os homens da terra na capeia, o boi da prova constitui um momento de entretenimento e de agregação da comunidade na praça, fazendo aumentar a expectativa de todos quantos assistirão à capeia.
PEDIDO DA PRAÇA
A Capeia inicia-se com o ritual “do pedir a praça”, que consiste no pedido de autorização que um dos mordomos efetua para dar inicio à capeia. É variável de aldeia para aldeia a figura a quem é dirigido o pedido ritual para dar inicio à capeia, podendo ser uma pessoa mais idosa, o presidente da Junta de Freguesia, um dos mordomos do ano anterior, ou qualquer outra pessoa de prestigio. O pedido da praça é um momento solene, um ritual com significado simbólico, através do qual se requer autorização para realizar a capeia.

A CAPEIA
A Capeia é uma manifestação tauromáquica específica de algumas povoações do concelho do Sabugal próximas da fronteira com Espanha, que se caracterize e singulariza das demais formas populares de manifestações tauromáquicas, pelo facto de a lide do touro bravo ser efectuada colectivamente, com recurso do Forcão.
As capeias são realizadas, por norma, em Agosto, em associação com a festa patronal de cada localidade, e, em regra geral, tem lugar no largo principal da aldeia, para tal temporariamente vedado. Para além da Capeia propriamente dita, isto é a lide do touro com o Forcão, constituem componentes publicas da prática o Encerro e o Boi da Prova , que precedem a capeia. Espetáculo ímpar, toda a população vive intensamente cada momento da capeia. Muito antes de começar já se sente uma enorme tensão no ar, misto de ansiedade e expectativa, que vai aumentando até à saída do primeiro touro.
É pela capeia que todos esperam e anseiam e é também por ela que continuam a vir muitos emigrantes e espanhóis. A Capeia Arraiana tornou-se nas ultimas duas ou três décadas, num importante património cultural das freguesias e do município do Sabugal, sendo registada, em 2011, no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. Foi um marco na salvaguarda do Património Cultural Imaterial, afirmando-se com dignidade no mapa patrimonial nacional. A Capeia enquanto manifestação cultural é única, é uma vivência, o que dá identidade às comunidades da Raia; é um ritual colectivo de que a pega ao forcão é um elemento fundamental. Consideramo-nos e somos considerados gentes das terras do forcão. É o que nos identifica, o que nos diferencia e classifica.
Ó FORCÃO RAPAZES
A rivalidade arraiana deu origem ao concurso “Ó Forcão Rapazes”. A primeira edição ocorreu no dia 23 de Agosto de 1986, Domingo, e foi anunciado como “o maior acontecimento taurino da região” O aparecimento do concurso do forcão foi a consequência de cada vez maior interesse na capeia arraiana e da lógica necessidade de juntar todos os arraianos em terreno neutro. O Concurso do Forcão foi transformado em Festival, deixando de haver o aspecto de competição, pelo menos naquilo que a classificação formal diz respeito.
Isto, apesar de cada equipa procurar fazer melhor que as outras.
Na primeira organização foi constituído um júri para a atribuição de classificação às equipas, no entanto, determinadas variáveis, nomeadamente a bravura dos touros, acabavam por criar bastantes dificuldades. Organização que não raro se via envolta em polémicas, contestando-se, muitas vezes, a imparcialidade dos membros do júri. Por todos estes motivos decidiu-se que esta manifestação taurina deixaria de funcionar como uma competição e passaria a ser uma mostra, funcionando em termo de festival, o que tem acontecido até à atualidade. Todos os anos, com a Praça de Touros esgotando completamente, composta por uma assistência vibrante e colorida, a rapaziada da Raia demonstra a sua raça, “esperando” ao Forcão, imponentes e corpulentos touros na arena, seguindo-se a sua lide, com um limite de 15 minutos para cada equipa. Esta soberba organização, em pleno Verão, contribui para a divulgação da Capeia Arraiana, espetáculo único no mundo, característico da Raia, que arrasta cada vez mais visitantes, anos a fio, onde a presença dos emigrantes, marca um peso considerável.









